Vertigem

Sugestão: Ouça a música enquanto lê, mas se quiser, pode ouvir antes ou depois de ler ; )

É noite de inverno. Você prepara aquela bebida quente e volta pra mesa de estudos, para se enfurnar mais naquela leitura ou naquela atividade que deixou passar. Lá fora o som é de sirene, num volume oscilatório, parecendo se afastar. Você estuda mais um pouco, já exausta, e depois se levanta para ir até a sacada. O décimo terceiro andar parece muito mais alto quando se está nele. Você sente o frio envolver seu corpo e olha para baixo repentinamente, sentindo uma leve tontura e ouvindo uma voz tão longe quanto aquela sirene, dizendo: “Pula!”

Você, então, volta para o quarto, pega um casaco e desce, indo em direção à rua. Esta, escura, suja e vazia, a não ser pelos viciados que ficam na porta fechada do bar em frente, que te olham descaradamente. Você tenta cortar volta e é abordada por um deles. Tudo passa pela sua cabeça, inclusive aquela mesma voz dizendo que ter pulado talvez tivesse sido melhor. Mas o viciado só quer dinheiro para poder comprar mais droga. Ele, felizmente, não te assalta quando você diz que saiu sem carteira e, depois de insistir pra você voltar ao seu apartamento, te deixa ir.

Você segue seu caminho, se distanciando cada vez mais do grupo de viciados, pegando uma viela alternativa, suspirando profundamente e agradecendo secretamente por ter saído sã e salva daquela abordagem. Num relance, você vê pela porta entreaberta de uma casa uma tevê ligada em um daqueles canais de variedades fúteis. Está passando um programa sobre reforma de casas. Nesse momento você se dá conta de que logo as aulas acabarão e na semana seguinte voltará para a casa dos seus pais.

A vertigem agora é outra. Seus ouvidos parecem tapados e nenhum som mais é audível. Você se lembrou de que assistir programas de tevê fúteis, como este da reforma de casas é o seu passatempo favorito das férias. Que a pressão na casa dos seus pais não é nada comparada à que você vive diariamente com as atividades acadêmicas. Aos poucos você retoma a consciência e aquele som de sirene retorna aos seus ouvidos. Junto com ele vem aquela sensação de felicidade por não ter dado ouvidos àquela voz.

Quem dera tudo fosse tão simples quanto é na casa de seus pais. Que as coisas fossem resolvidas mais facilmente e que você nunca tivesse que voltar para os problemas da faculdade. Mas a vida é assim: a gente vive procurando por grandes recompensas e não se dá conta que em alguns momentos, só precisamos das pequenas, daquela motivação mínima para voltar a lutar. Isso não quer dizer que nunca vamos desistir, mas é melhor procrastinar a desistência mais um cadinho.

Você foi forte até agora e, por mais que não pareça, chegou até aqui. Continue mais um pouquinho!

Obrigado por ler até aqui.

A imagem de capa é de Stefan Stefancik

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Um comentário sobre “Vertigem

  1. Lumena disse:

    Engraçado como antes “ir pra casa” era visto pela maioria como “aff. Tenho q ir pra casa pq caso contrário minha mãe me enche”. Hoje eu quero q ela me encha, q ela me transborde, quero minha casa! Kkkk

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